Em carta, mãe de Miguel surpreende com resposta a pedido de perdão de Sari, mulher do prefeito

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Mirtes Renata, mãe do pequeno Miguel, decidiu responder através de uma carta, ao pedido de perdão feito publicamente pela ex-patroa Sarí Corte Real, que estava responsável pela criança quando ela caiu do 9º andar de um prédio de luxo em Recife, na semana passada.

Em um desabafo emocionante e doloroso, Mirtes afirma que não perdoa a primeira-dama e dispara:

“Perdoar pressupõe punição; do contrário, não há perdão, senão condescendência. A aplicação de uma pena será libertadora, abrandará o meu sofrimento, permitirá o meu recomeço e abrirá espaço para o que foi pedido: perdão. Antes disso, perdoar seria matar o Miguel novamente”.

Miguel Otávio, de 5 anos, morreu ao cair do 9º andar de edifício no Recife — Foto: Reprodução/Facebook
(Foto: Reprodução/Facebook)

Para a empregada doméstica, o pedido de perdão de Sarí não foi sincero e tinha apenas o objetivo de tentar reverter a opinião pública, já que o caso gerou revolta e ascendeu novamente o debate em torno de um crime considerado por muitos banal: o racismo.

Ela destaca ainda que a carta da mulher sequer foi entregue para ela, mas diretamente para os jornalistas. E afirma que Sarí está preocupada por esse ser um ano de eleição.

Mirtes Santana guarda pertences do filho Miguel, morto após cair de prédio de luxo no Recife — Foto: Reprodução/TV Globo
(Foto: TV Globo)

Na carta escrita com a ajuda do advogado, Mirtes acusa que o descaso da mulher se deu porque Miguel é negro, filho de uma mulher humilde. Confira na íntegra a carta que foi divulgada nessa quarta-feira (10) e entregue aos advogados da primeira-dama:

Sobre o perdão pedido por Sari

Eu não recebi qualquer pedido de desculpas. A carta de perdão foi dirigida à imprensa, o que me faz pensar que eu não era destinatária, mas sim a opinião pública com a qual ela se preocupa por mera vaidade e por ser esse um ano de eleição.

Eu não tenho rancor. Tenho saudade do meu filho. O sentido da vida de quem e´ mãe passa pelo cheiro do cabelo do filho ao acordar, pelo sorriso nas suas brincadeiras, pelo “mamãe” quando precisa do colo e do abrigo de quem o trouxe ao mundo. Uma mãe, sem seu filho, sofre uma crise, não apenas de identidade, como também de existência. Quem sou eu sem Miguel? Ela tirou de mim o meu neguinho, minha vida, por quem eu trabalhava e acordava todos os dias.

Quando eu grito que quero justiça, isso significa que eu preciso que alguém assuma a minha dor, lute minha luta, seja o destilado da cólera que eu não quero e nem posso ser. Eu não tenho forças neste momento, não tenho chão. Não tenho vida!

Após poucos dias é desumano cobrar perdão de uma mãe que perdeu o filho dessa forma tão desprezível. Afinal, sabemos que ela não trataria assim o filho de uma amiga. Ela agiu assim com o meu filho, como se ele tivesse menos valor, como se ele pudesse sofrer qualquer tipo de violência por ser “filho da empregada”.

Perdoar pressupõe punição; do contrário, não há perdão, senão condescendência. A aplicação de uma pena será libertadora, abrandará o meu sofrimento, permitirá o meu recomeço e abrirá espaço para o que foi pedido: perdão. Antes disso, perdoar seria matar o Miguel novamente.

Mirtes, mãe de Miguel

(carta escrita com auxílio do advogado constituído)